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designações

Os/as nossos/as desalojados/as, os/as nossos/as hospitalizados/as, os/as nossos/as falecidos/as, os/as nossos/as detidos/as, os/as nossos/as grevistas, os/as nossos/as recuperados/as, os/as nossos/as assintomáticos/as, os/as nossos decisores/as, os/as nossos/as socorristas, os/as nossos/as adoentados/as, os/as nossos/as vacinados/as, os/as nossos/as desempregados/as, os/as nossos/as voluntários/as, os/as nossos/as carenciados/as, os/as nossos/as trabalhadores/as… a cábula do senhor Presidente da República continha todas as situações possíveis, salvo as habituais dúvidas quanto ao género, só ficando por esclarecer a quem pertencia toda esta gente. Nossos? Mas nossos de quem?

docilidade

Sob a égide do Ministério do Interior, abriu finalmente a secção da Loja do Cidadão em que se fornecem açaimes aos interessados. Trata-se de um acessório de segurança colocado no focinho de cada portador do Cartão de Cidadão de modo a que o mesmo não morda os demais ou diga coisas inconvenientes. O açaime, um instrumento adequado à manutenção da ‘ordem interna’, torna a população dócil e aberta a qualquer solução proposta pelo poder e já foi utilizado inúmeras vezes em Portugal. A vantagem do açaime actual sobre os anteriores é de assentar no consumo e ser mantido com simples recurso aos olhos e ouvidos, mais respectivo crédito. Quanto ao mais… peanuts !  

viver

‘ O quê, o senhor está vivo? Ó homem, marque já consulta num especialista! ’ Viver tornou-se numa doença de consequências imprevisíveis. Das finanças sempre em crise à falta de motivação e de atenção, as falhas da memória, o burn out , o cansaço sem motivos aparentes, as dores de cotovelo e as zangas sem fim… O viver tornou-se tão difícil como a procura da cura para o mesmo, multiplicando-se os livros de auto-ajuda e complexas terapias orientais. A vida fez-se numa tragédia, se bem que o trágico não seja propriamente uma categoria patológica. Benedita hesita, dado que um amigo lhe sugeriu que são os sofrimentos e as alegrias que fazem a vida. ‘Curar-se’ dos primeiros é assunto para charlatães.

a paz

A paz? Que tédio!’ , disse o comandante da brigada mecanizada. ‘A paz? Qual paz… guerra das estrelas!’ acrescentou um cowboy em Fort Laramie. ‘ Dá trabalho manter a paz’ dizia o comandante de um B-52 largando ameixas sobre o Vietnam. A paz por um fio: o tenente Sakarov brincando com o disparador de um SS20 ou o tenente Rivers brincando com o disparador de um Pershing2 . ‘La pacificación’, proclamava o general Barrientos após fuzilar 1.356 tipos da oposição, em Aguadulce de Bajo. Entretanto, o urso polar, o sultão de Castelgandolfo e o secretário geral da ONU falam da amizade entre os povos. Os patrões das Mafias e sucursais legais acrescentam ‘ deixem-nos trabalhar em paz !’  

camuflar

Antigamente, um poderoso mostrava que o era. Agora, o milionário anda de t-shirt rasgada e alpergatas, tentando passar desapercebido na multidão. Dissimulam-se os privilégios, na medida em que se tornou imperativo proclamar através dos actos uma igualdade que não existe na prática. Os poderosos e respectiva corte dizem para a mulher-a-dias: ‘os operários, Etelvina, é tudo jantaradas, férias, viagens! Nós vivemos do nosso trabalho... modestamente... pois é, Etelvina... olhe para si e para mim… somos trabalhadores!’ e a boa da Etelvina lá segue esfregando o chão, enquanto eles tentam camuflar a vidinha. Os milhões? ‘Tenho uns trocos’ respondem, enquanto um gestor trata dos pormenores.

password

Irene Buarcos tem uma evidente dificuldade em se adaptar à informatização reinante, tanto mais que o seu corpo não possui um sistema plug-in . As suas portas estão adaptadas ao que já se sabe, mas isso de introduzir nelas fichas usb para a ligar à ‘realidade’… está quieto! Assim sendo, Irene tenta outra metodologia: a oralidade. Mas o seu computador, numa clara manifestação de falta de contemporaneidade, recusa-se a abrir com o ‘abre-te Sésamo’ com que a Buarcos o brinda. Já com o espelho da casa de banho se passa o mesmo. O ‘ espelho meu, espelho meu’, apesar de dito com voz cativante, esbarra sistematicamente com o silêncio da superfície polida, ficando-se por saber quem será a mais bela lá do prédio.

marquise

A marquise , sobretudo quando de bom alumínio, é um engenhoso e estético adereço de fachada que confere a qualquer edifício a dignidade que o projectista não lhe soube ou pode dar. Além disso, a marquise aumenta a superfície em m 2 - ‘ o Zézinho dorme na marquise’ ou o estendal da roupa abrigado da chuva são dois clássicos do ordenamento do espaço doméstico em Portugal. Mas pergunta-se: por que se constroem apenas marquises , por que não se constroem comtesses ou duchesses ? Dada a natureza dos nossos construtores civis já é difícil imaginar vicomtesses e baronnesses a cobrir varandas, mas enfim , sem se saber bem o porquê, lá se chegou às marquises . ‘ Um feito notável’ , diz Ester de Soveral.